﻿# Teto de 0,7% no intercâmbio de pré-pago: o que mudou e como recalibrar sua operação
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Site: JUST Fintechs
Autor: Gabriel Pires
Categoria: Regulação
Publicado em: 2026-04-23
Atualizado em: 2026-04-23
Tags: pré-pago, intercâmbio, bacen, regulação, cartão
## Resposta curta
Em abril de 2023, o BACEN publicou a Resolução BCB 246, que limitou o intercâmbio de cartões pré-pagos a 0,7% sobre o valor da transação. Antes dessa mudança, o intercâmbio de pré-pago variava entre 1,0% e 1,5%, quase no nível do cartão de crédito. A nova regra tornou pré-pago e débito economicamente equivalentes e forçou muitas operações a repensarem o modelo.
# Teto de 0,7% no intercâmbio de pré-pago: o que mudou e como recalibrar sua operação

## Resposta direta

Em abril de 2023, o BACEN publicou a Resolução BCB 246, que limitou o intercâmbio de cartões pré-pagos a 0,7% sobre o valor da transação. Antes dessa mudança, o intercâmbio de pré-pago variava entre 1,0% e 1,5%, quase no nível do cartão de crédito. A nova regra tornou pré-pago e débito economicamente equivalentes e forçou muitas operações a repensarem o modelo.

## O contexto: por que o teto foi imposto

Até 2023, o cartão pré-pago era a estrela do mercado de emissão no Brasil. Tinha três vantagens:

Intercâmbio parecido com o de crédito, em torno de 1,0% a 1,5%, mas sem o risco de crédito para o emissor. O usuário só gasta o que carregou. Emissor ganha intercâmbio sem assumir inadimplência.

Onboarding simples. KYC leve (a operação pré-pago básica exigia CPF, nome e nascimento, sem biometria forte nem análise de crédito). Isso permitia abertura rápida de conta.

Regulação mais leve. O BACEN tratava pré-pago com menos rigor do que crédito, com menos exigências de capital e de reserva.

O resultado foi uma explosão de fintechs usando o pré-pago como base para tudo. Contas digitais, cartões de benefício, wallets, programas de cashback, programas de parceiros. Todo mundo queria o intercâmbio do pré-pago sem o trabalho de montar uma operação de crédito.

O BACEN observou algumas questões com isso:

Risco de arbitragem regulatória. Produto com função econômica de cartão de crédito, mas com regulação de pré-pago. Instituições usando o pré-pago para burlar exigências de crédito.

Concorrência distorcida. Cartões pré-pago ganhando intercâmbio parecido com crédito, sem os custos e riscos do crédito. Desincentivo para emissores sérios de crédito.

Custo alto do sistema de pagamentos. Intercâmbio alto pressiona MDR do estabelecimento, e o estabelecimento repassa ao consumidor final. O BACEN vinha tentando reduzir o custo do sistema há anos (o teto de débito foi em 2022).

A Resolução BCB 246, publicada em 28 de setembro de 2023 e com efeitos a partir de abril de 2024, colocou o intercâmbio de pré-pago no mesmo patamar do débito: teto de 0,5% para transações domésticas presenciais e 0,7% para não presenciais (e-commerce), com média ponderada de 0,5% ao longo de 12 meses.

O mercado popularmente chamou o número de "0,7%" (referência à marca mais alta), mas na prática a média regulatória é 0,5%, um número bem mais apertado.

## O impacto direto no mercado

O resultado foi imediato:

- **Reordenação da rentabilidade por produto.** O que antes era melhor monetização virou pior monetização. Pré-pago caiu para o mesmo nível do débito.
- **Êxodo para crédito colateralizado.** Muitas operações migraram para o modelo de cartão de crédito com colateral (no estilo XP), onde o usuário deposita um valor que lastreia o limite. Assim, mantém a classificação de crédito (com intercâmbio em torno de 1,5%) sem assumir risco real de inadimplência.
- **Voucher ganhou protagonismo.** O programa voucher (cartões de alimentação e refeição para trabalhadores), com intercâmbio em torno de 1,0% a 2,5%, virou o refúgio de muitas operações de benefício. Não está sujeito ao teto de pré-pago.
- **Saída de marketplaces menores.** Fintechs menores, que faziam sentido só no modelo pré-pago com intercâmbio gordo, perderam a viabilidade. Alguns consolidaram, outros fecharam programa.
- **Revisão de P&L em cadeia.** Toda operação que tinha pré-pago como sustentáculo teve que refazer a projeção. Receita caiu 30% a 50% em muitos casos. Muita empresa descobriu que não tinha como recuperar.

## O que significa 0,7% (ou 0,5%) na prática

Pra visualizar, vamos comparar antes e depois em uma operação típica:

| Produto | Intercâmbio anterior | Intercâmbio após Res. BCB 246 |
|---|---|---|
| Pré-pago consumidor (presencial) | 1,0% a 1,3% | 0,5% |
| Pré-pago consumidor (e-commerce) | 1,2% a 1,5% | 0,7% |
| Pré-pago comercial | 1,5% a 2,0% | 0,5% a 0,7% |

Em uma operação com TPV mensal de R$ 50 milhões em pré-pago consumidor 100% presencial:

- Antes: R$ 50 milhões × 1,1% (intercâmbio médio anterior) = R$ 550 mil de intercâmbio bruto mensal.
- Depois: R$ 50 milhões × 0,5% = R$ 250 mil de intercâmbio bruto mensal.

Uma queda de 55% na receita principal. Para a maioria das operações, não há como absorver essa queda sem repensar o modelo inteiro.

## Os caminhos de recalibragem

Quem estava em pré-pago e precisou recalibrar, basicamente, tomou uma dessas rotas:

- **Migração para crédito colateralizado.** O modelo mais popular. O usuário deposita um valor (fica investido ou em conta de pagamento) e esse depósito lastreia o limite do cartão de crédito. A fintech passa a emitir crédito, recebe intercâmbio de crédito (1,4% a 2,0%), mas não assume risco real de inadimplência. Foi o caminho que a XP escalou e que muitas fintechs seguiram.
- **Migração para voucher.** Para operações de benefício corporativo, migrar o programa da bandeira de pré-pago para voucher preserva a rentabilidade. O voucher tem intercâmbio entre 1,0% e 2,5%, dependendo da bandeira e do programa. Requer estrutura específica (o cartão só pode ser usado em MCCs específicos de alimentação ou refeição).
- **Monetização lateral.** Operações que não conseguiram migrar o programa passaram a extrair receita de outras fontes. Tarifa de manutenção, tarifa de saque, tarifa de transferência, assinatura premium, serviços complementares. Em muitos casos, não foi suficiente.
- **Consolidação ou encerramento.** Operações pequenas ou sem diferencial de produto acabaram sendo vendidas ou fechadas. O mercado de emissão se concentrou.

## Como o teto mudou a negociação com BaaS

O teto de pré-pago também forçou uma renegociação no ecossistema de BaaS.

Antes, o BaaS oferecia pré-pago com take rate de 10% a 20% sobre intercâmbio. Com 1,2% de intercâmbio, o take rate era tolerável. Com 0,5%, o take rate ficou asfixiante. Quem operava via BIN Sponsor e não renegociou, ficou com margem insustentável.

Hoje, em programas de pré-pago, o padrão é repasse quase integral do intercâmbio (take rate de 0% a 5%). O BaaS extrai receita principalmente por tarifas unitárias e fees mínimos. Se você está começando uma operação agora e o BaaS propõe take rate de mais de 10% em pré-pago, negocie ou troque de BaaS.

## O que isso significa para quem está começando agora

Se você está modelando uma operação de cartão em 2026 e está considerando pré-pago, aqui vão os pontos que a gente na JUST sempre joga na mesa:

- **Primeira: pré-pago só faz sentido hoje em um de três cenários.** Voucher (alimentação ou refeição), programa corporativo específico com alta frequência e alto ticket, ou parte de uma estratégia híbrida onde o pré-pago é só onboarding antes da migração para crédito.
- **Segunda: não use o intercâmbio antigo de pré-pago para projetar P&L.** Se você encontrar tabelas desatualizadas com 1,2% a 1,5%, são de antes de abril de 2024. Use 0,5% a 0,7%, dependendo do mix presencial versus e-commerce.
- **Terceira: se sua operação é B2B (cartão para CNPJ), considere cartão comercial em vez de pré-pago.** Intercâmbio de crédito comercial fica entre 1,6% e 2,2%, bem mais atrativo, e o perfil de usuário (pessoa jurídica) é mais previsível.

## O que vem por aí

O BACEN não parou em pré-pago. A política de reduzir custos do sistema de pagamentos continua, e novos ajustes podem vir.

Sinais que o mercado está acompanhando:

- Possível revisão de crédito em transações presenciais, com pressão para redução em subprogramas específicos.
- Expansão do Pix garantido e Pix automático, que podem canibalizar parte do volume de cartão em 2026 e 2027.

Revisão da regulação de voucher, que hoje é o programa com intercâmbio mais alto do mercado e está na mira de atores que questionam se o nível é justificável.

Ninguém tem certeza do que vem nem do timing. Mas quem está modelando operação de cartão hoje precisa trabalhar com cenários. Não dá para ancorar plano de negócio de 5 anos em um único nível de intercâmbio. O teto regulatório é parte do jogo agora, e vai continuar sendo.

## FAQ

**Qual é o teto atual do intercâmbio de pré-pago?**

Desde abril de 2024, o BACEN limita o intercâmbio de pré-pago doméstico a 0,5% em transações presenciais e 0,7% em transações não presenciais (e-commerce), com média ponderada de 0,5% ao longo de 12 meses.

**Por que o BACEN impôs o teto?**

As razões principais foram reduzir o custo do sistema de pagamentos para o consumidor, evitar arbitragem regulatória (pré-pago sendo usado como crédito barato) e equilibrar a concorrência entre produtos de pagamento.

**Cartão pré-pago ainda vale a pena como modelo de negócio?**

Depende do caso de uso. Para voucher de alimentação e refeição, sim. Para programa corporativo de benefícios flexíveis, pode valer. Para conta digital genérica ou wallet de consumo, dificilmente. Avalie se o modelo se sustenta com intercâmbio de 0,5%.

**Qual é a diferença de intercâmbio entre pré-pago e débito hoje?**

Praticamente nenhuma. Os dois estão com teto de 0,5% em média ponderada. Na prática, tornaram-se produtos equivalentes do ponto de vista de rentabilidade para o emissor.

**Posso migrar meu cartão pré-pago para crédito?**

Sim, mas requer adequação regulatória e de produto. O modelo de crédito colateralizado é o caminho mais comum: o usuário deposita um valor que lastreia o limite. Converse com seu [BIN Sponsor](/conteudos/bin-sponsor-o-que-e) sobre os programas disponíveis.

**O teto se aplica a pré-pago corporativo?**

Sim. A Resolução BCB 246 não distingue entre pré-pago consumidor e comercial para efeito do teto. Ambos ficam sujeitos ao mesmo limite.

**Voucher também tem teto?**

Não no momento. Programas de voucher (alimentação e refeição) seguem tabelas próprias das bandeiras, com intercâmbio entre 1,0% e 2,5%. Mas o mercado especula que o BACEN pode vir a regular voucher também.

**Como o teto afetou as adquirentes?**

Menos que os emissores, mas afetou. Com menos intercâmbio, o MDR de pré-pago caiu, o que comprimiu a margem do adquirente também. Em alguns casos, o adquirente passou a cobrar MDR mais alto em produtos pré-pago para compensar.

**Cartão pré-pago de bandeira internacional (como cartão de viagem) tem teto?**

Para transações internacionais, as regras do BACEN sobre intercâmbio doméstico não se aplicam diretamente. O intercâmbio cross-border segue tabelas específicas das bandeiras, geralmente mais altas (2% a 3%), com custos de câmbio compensando a receita.

## Próximo passo

Se sua operação de cartão está ancorada em pré-pago e você precisa reavaliar o modelo diante da nova regulação, a JUST ajuda a redesenhar a estrutura de receita e os programas adequados. [Fale com a gente](/contato) para analisarmos o cenário da sua operação.
